Esse é um tema bastante novo e acredito que ainda não tenha muito publicado sobre o assunto, mas na sua visão como você acha que a tecnologia tem influenciado nas mudanças das relações sociais?

É um tema novo sim, e tem introduzido muitas questões interessantes acerca do nosso comportamento. Sem dúvida, a tecnologia e as mídias sociais têm influenciado as interações sociais. As redes sociais aproximam pessoas, nos ajudam a resgatar contatos antigos, possibilitam a troca ágil de informações e nos deixam conectados como nunca. Mas, por outro lado, pela facilidade e agilidade que oferecem, não raramente ocupam um espaço que seria reservado ao contato social “ao vivo”. Levamos nossos celulares sempre em nossas bolsas, bolsos, estão ao nosso lado em todos os momentos, o que nos traz a sensação de estarmos sempre “a postos”, para tudo o que vier. Mas é importante sempre nos lembrarmos de que a comunicação virtual não substitui, e não deve substituir o contato pessoal, e não deve exclui-lo. E estamos correndo esse risco.

Qual o impacto dessas mudanças na educação das crianças e dos jovens de hoje?

Os jovens são hoje os consumidores mais frequentes das redes sociais. Desde muito cedo aprendem a mexer em “smartphones”, “tablets”, e é impressionante a rapidez com que aprendem! Essas tecnologias possibilitam que crianças e jovens tenham acesso a um universo de informações em uma rapidez incrível, o que pode ser utilizado de uma forma muito positiva no processo de educação. São úteis em salas de aula, com o uso supervisionado pelos professores. Há aplicativos e sites muito interessantes, com conteúdo educativo, que auxiliam as crianças a desenvolver um raciocínio lógico, mas essa descoberta deve ser orientada de uma forma muito próxima por pais e educadores.

 O que precisamos estar mais atento no uso de redes sociais pelas crianças e adolescentes?

Quem já não presenciou um encontro familiar em que jovens (e mesmo adultos) ficam em silêncio checando seus celulares o tempo todo? Ou observou que, em uma mesa, os adolescentes conversam entre si por aplicativos de troca de mensagens e não pessoalmente? Precisamos ficar atentos ao risco de que os jovens, em especial na adolescência, façam uso da tecnologia para substituir o enfrentamento de situações nas quais o contato pessoal é importante para o desenvolvimento de habilidades sociais, que são importantes não apenas sob o ponto de vista pessoal, como também para o sucesso na vida profissional. Muitos adolescentes são extremamente hábeis em “teclar”, sentem-se seguros nessa forma de interação, mas quando estão diante de outras pessoas apresentam uma grande dificuldade em iniciar uma conversa, sentem-se inseguros. E acabam por se acomodar no mundo virtual em detrimento da exposição social, que propicia um rico aprendizado para o relacionamento interpessoal. Outro cuidado a tomar, e vale sempre lembrar, é o risco de que, ao interagir em redes sociais, os jovens se deixem envolver por adultos que se fazem passar por adolescentes, o que pode levar a serias consequências.

 

Agora estamos vivendo a “onda” do buylling digital. Como proteger nossos filhos na era digital?

 

Os jovens devem ser orientados a jamais publicar fotos íntimas, ou publicar sem restrições conteúdos pessoais, que podem ser compartilhados pelos amigos de redes sociais e motivar uma onda de recriminações. Sem critério, conteúdos que os jovens  publicam por acreditar que possam  trazer valorização e admiração por parte de outros , podem ser criticados, ironizados, e isso pode acarretar (ou mesmo agravar) problemas de auto-estima. É importante buscar a confiança dos filhos para que, quando possível, se sintam encorajados a compartilhar com os pais aquilo que desejam publicar, para que de uma forma afetiva se possa orienta-los.

 

Como podemos usar a tecnologia a nosso favor?

Como disse anteriormente, a tecnologia nos oferece hoje muitas possibilidades: a facilidade do acesso a informações, o contato com pessoas distantes, o contato com profissionais de saúde, enfim, estarmos conectados também nos ajuda a nos sentirmos menos sós. Em algumas situações mais específicas, as redes sociais podem auxiliar pessoas que tem dificuldade nos relacionamentos interpessoais a desenvolver suas habilidades sociais, a promover o contato e a aproximação com outras pessoas. Algumas vezes recomendamos que pessoas extremamente tímidas, por exemplo, tentem iniciar contato com outros por meio das redes sociais, sites de relacionamento, aplicativos, mas sempre fornecendo orientações sobre o modo seguro de usar esses meios de contato.

Estão aparecendo novos quadros clínicos no consultório relacionados ao mundo digital?

Já se descreve um quadro de “dependência de tecnologia”.  Algumas vezes o próprio paciente apresenta essa queixa diretamente, mas em outras situações isso aparece indiretamente, a questão inicial pode ser dificuldade no relacionamento familiar, sobrecarga de trabalho,  isolamento social, problemas em outras áreas da vida, e ao conversarmos mais, identificamos que o foco principal está na dependência da tecnologia.

Quando deixa de ser um lazer e passa a ser um vício?

Podemos dizer que se torna um vício quando a pessoa não consegue controlar o uso da tecnologia (por exemplo,  a internet, os jogos eletrônicos, o uso de smartphones, “tablets”) e quando esse apresenta características semelhantes às de outras dependências: além de não conseguir se controlar, a pessoa não consegue mudar o comportamento apesar dos problemas que isso pode acarretar em sua vida, mesmo que levem a um sofrimento, passa a maior parte do tempo envolvida com essa atividade, deixa de lado outras áreas importantes da vida para se dedicar ao uso da tecnologia, sofre quando está privada do contato com o computador, a internet, o smartphones, o “tablet”. Como ainda é um tema novo, às vezes é difícil estabelecer o que seriam os limites entre o uso por lazer e o vício, mas algumas “pistas” são os problemas familiares, conjugais, o comprometimento no rendimento escolar, o isolamento social.

Já podemos falar em tratamentos para vicicados em tecnologia? Como isso acontece?

Sim, já existem grupos que trabalham com o tratamento para dependentes de tecnologia, tanto em grupos de pesquisa em hospitais universitários como em clínicas privadas. O tratamento envolve uma abrangente avaliação do paciente, incluindo em muitos casos a família. A psicoterapia é recomendada e, em alguns casos, quando se identificam outros problemas da área de saúde mental, os medicamentos também podem ser indicados.

Deixe uma dica para as  mamães e papais que ainda estão na corda bamba com as novas tecnologias.

A dica principal é orientar os filhos sobre o modo seguro de usar as novas tecnologias. Estabelecer horários e regras para o uso de computadores e internet em casa, por exemplo. Não se deixar levar por conversas com pessoas estranhas, não se expor demais, jamais fornecer dados pessoais como endereço, profissão dos pais, nunca publicar fotos íntimas, não marcar encontros com desconhecidos, por exemplo. Recentemente assisti a um vídeo publicado em uma rede social, em que um rapaz americano de uns vinte e poucos anos, com a concordância dos pais de três adolescentes, inicia conversas com elas por redes sociais fazendo-se passar por um jovem de 15 anos;  fiquei impressionada com a rapidez e facilidade com que ele marcou encontros com elas, em parques, ou mesmo em suas casas! Os pais estavam cientes de tudo, e surpreenderam as filhas no momento do encontro, para orienta-las sobre o risco que correram!  Aos pais fica também a dica de não publicar excessivamente em redes sociais as fotos dos filhos, ou fotos que exibam seu status socioeconômico..