O transtorno bipolar (TB) é caracterizado pela alternância de episódios depressivos e de episódios de euforia (também denominados de mania), em diversos graus de intensidade. É uma condição médica frequente, e considerando-se todas as suas formas clínicas (TB tipo I, TB tipo II e quadros mais brandos do que chamamos de “espectro bipolar) a prevalência ao longo da vida é de cerca de 4% na população geral. Embora a idade média de início dos sintomas do TB seja por volta dos 20 anos, o aparecimento dos sintomas na infância e na adolescência é cada vez mais descrito e, em função de peculiaridades na apresentação clínica, o diagnóstico diferencial pode ser difícil, o que retarda a instalação de um tratamento adequado.

O TB se associa a um importante sofrimento para os portadores e suas famílias. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam para o TB como a sexta maior causa de incapacitação entre os transtornos mentais. Estimativas indicam que expectativa de vida pode ser até 10 anos menor entre portadores do TB. O suicídio é a causa mais freqüente de morte, principalmente entre os jovens (a prevalência de tentativas de suicídio é de cerca de 35% ao longo da vida). Também doenças clínicas como obesidade, diabetes, e problemas cardiovasculares são mais freqüentes entre portadores de TB do que na população geral. A associação com a dependência de álcool e drogas não apenas é comum (41% e 12%, respectivamente), como agrava o curso e o prognóstico do TB, piora a adesão ao tratamento e aumenta em duas vezes o risco de suicídio.

No TB tipo I observamos a ocorrência de episódios de depressão e de mania. Os episódios de mania se caracterizam pela presença de humor eufórico ou irritável, aumento da energia física, hiperatividade, diminuição da necessidade de sono, aceleração de pensamentos, fuga de idéias, pressão para falar, loquacidade, maior sociabilidade, planos grandiosos ou irreais, ideias de grandeza, auto-referencia, maior religiosidade/misticismo, aumento da impulsividade – com gastos excessivos, atos imprudentes, arriscados – aumento da libido, sem que se tenha crítica em relação ao seu estado; delírios (de grandeza, místicos, ou de persecutoriedade) e alucinações (ouvir vozes, por exemplo) podem estar presentes.

Já no TB tipo II os episódios depressivos se alternam com episódios de hipomania. A hipomania é uma forma mais branda de mania, mas que igualmente leva ao sofrimento e comprometimento. Os sintomas estão presentes em intensidade mais leve ou em menor duração – às vezes dias – e familiares e amigos reconhecem que o portador está se comportando de forma diferente de seu padrão habitual.

Os episódios de depressão se caracterizam pela presença de humor depressivo ou irritável, perda de interesse e prazer, alterações no padrão de sono (com insônia ou hipersonia), alterações no apetite (inapetência ou apetite excessivo) com perda ou ganho de peso, lentificação psicomotora, dificuldade para tomar decisões, sentimentos de baixa auto-estima, de culpa e de inutilidade, diminuição da libido, pensamentos de que a vida não vale a pena, ideias de suicídio. Na evolução do TB é frequente observarmos a ocorrência de episódios depressivos com “características atípicas”, que incluem a piora vespertina, o aumento do apetite com ganho de peso, o aumento da necessidade de sono, e a reatividade do humor.

Frequentemente observamos, ainda, como manifestação clínica do TB, o aparecimento de episódios mistos, em que estão presentes sintomas de depressão e de mania, e que se associam a um alto grau de desconforto, disforia, irritabilidade, impulsividade e consequente risco de suicídio.

O tratamento do TB envolve o tratamento das fases agudas de depressão, de hipomania/mania, dos episódios mistos e o tratamento de manutenção. O uso de estabilizadores do humor é considerado como “linha central” do tratamento do TB, e antipsicóticos atípicos e a combinação de antidepressivos e antipsicóticos atípicos podem ser empregados para o tratamento dos episódios agudos.