O tratamento da depressão visa a remissão do episódio depressivo e a recuperação total do paciente. A depressão tem uma natureza recorrente. A possibilidade de recorrências, após a recuperação de um episódio depressivo é de 50%; depois de dois episódios, a chance de recorrências aumenta para 70%-80%; indivíduos que tiveram mais de dois episódios depressivos prévios apresentam um risco de recorrências superior a 90%. O tratamento adequado reduz o risco de recorrências para cerca de 30%. É dividido em três fases: fase aguda, fase de continuação e fase de manutenção.

As fases do tratamento da depressão 

Fase Aguda: O objetivo é a remissão dos sintomas e melhora do funcionamento psicossocial e tem a duração de seis a oito semanas, em geral.

Fase de Continuação:  O objetivo é a prevenção de recaídas e recuperação do funcionamento psicossocial, e a duração é, em média, de quatro a nove meses.

Fase de Manutenção: O objetivo é a prevenção de recorrências, e a duração é indefinida.
É importante buscar a melhora completa dos sintomas, pois a permanência de sintomas residuais subsindrômicos (aqueles sintomas que não preenchem critérios para o diagnóstico de um episódio depressivo) agrava a evolução da depressão. Os sintomas residuais mais frequentemente relatados são fadiga, insônia, diminuição da concentração, do interesse e da motivação. Comprometem a qualidade de vida e associam-se a um maior risco de recaídas (até 80%).

A ESCOLHA DO TRATAMENTO DA DEPRESSÃO

Como opções para o tratamento da depressão, temos: a farmacoterapia, a psicoterapia, a combinação de farmacoterapia e psicoterapia, e outros tratamentos somáticos, como a eletroconvulsoterapia (ECT) e a estimulação magnética transcraniana (EMT), principalmente. A escolha do tratamento é feita com base na sintomatologia clínica (gravidade, presença de estressores psicossociais, por exemplo), nos antecedentes pessoais e familiares de boa resposta a uma determinada classe de antidepressivos, na presença de comorbidades clínicas (diabetes, hipertensão, doenças cardíacas, obesidade, por exemplo) e psiquiátricas (ansiedade, abuso ou dependência de álcool e de outras substâncias psicoativas, transtornos de personalidade), e na preferência do paciente.

Farmacoterapia

Dispomos hoje de diversos compostos antidepressivos, e os antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (fluoxetina, sertralina, paroxetina, citalopram, escitalopram, fluvoxamina), os inibidores de recaptação de noradrenalina e serotonina (venlafaxina, duloxetina, desvenlafaxina), a mirtazapina e a bupropiona tem sido empregados como primeira escolha, principalmente em casos de depressões leves e moderadas.

Os antidepressivos tricíclicos (imipramina, clomipramina, amitriptilina, nortriptilina) são em geral empregados em casos de maior gravidade e os inibidores seletivos de monoaminooxidase (tranilcipromina) são reservados para aqueles casos de má resposta a outros tratamentos, em função das limitações de dieta e da interação com outros medicamentos.

Segundo um estudo realizado com pacientes no “mundo real” da prática clínica (STAR*D – Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression), cerca de 1/3 dos pacientes apresentam a remissão com o primeiro antidepressivo, e após um ano, depois de quatro sequencias de antidepressivos, 2/3 dos pacientes apresentam remissão. A combinação de antidepressivos, portanto, é uma prática frequente para a obtenção da remissão.
Tratamentos somáticos

A eletroconvulsoterapia (ECT) é um tratamento ainda visto por muitos como arcaico, e cercado de medos, por ser associado a um método doloroso, de “tortura”, etc…Hoje existe uma regulação do Conselho Federal de Medicina, que determina que deve ser realizado sob anestesia, relaxamento muscular, com a assistência de um psiquiatra, anestesista, equipe de enfermagem. È indolor e eficaz. É considerado o tratamento de primeira escolha para casos graves com risco de suicídio ou que não apresentaram resposta a diferentes antidepressivos, presença de sintomas psicóticos (delírios, alucinações) ou catatônicos, quadros de inanição, ou mesmo de acordo com a preferência do paciente.

A estimulação magnética transcraniana (EMT) é um tratamento que utiliza a criação de um campo eletromagnético para a indução de um estímulo elétrico. Não necessita de anestesia, e deve ser aplicado por um psiquiatra com amplo domínio da técnica.

 

Psicoterapias

A psicoterapia pode ser o tratamento de escolha para casos de depressão leve, associada ou não ao tratamento farmacológico. Em casos de depressão moderada, deve ser sempre associada ao tratamento farmacológico. Tem um papel importante para a reformulação de crenças e pensamentos disfuncionais que observamos frequentemente em pacientes deprimidos, para trabalhar as habilidades sociais, a capacidade de enfrentamento das situações estressantes, as dificuldades no relacionamento interpessoal. A psicoterapia familiar é indicada muitas vezes, para auxiliar na resolução de problemas familiares.

 

Psicoeducação e Grupos de Apoio

Além das estratégias já descritas, é importante a participação em grupos e associações que promovem a psicoeducação, para que o paciente e sua família se informem sobre sua doença, tratamentos, para conhecer e enfrentar melhor a depressão. Nessas associações, como a ABRATA (Associação de Amigos, Familiares e Portadores de Transtornos Afetivos), além das reuniões nas quais profissionais apresentam diversos temas relacionados aos transtornos do humor (depressão e transtorno bipolar), são promovidos grupos de apoio mútuo para pacientes e familiares, nos quais há um compartilhamento de experiências de vida, dificuldades, etc…e promovem um ambiente acolhedor, que fornece apoio para pacientes e familiares.

 

Considerações finais

A adesão é um fator muito importante para o sucesso do tratamento. Manter uma boa relação com o médico e com toda a equipe envolvida, tomar as medicações adequadamente, comparecer às consultas, e participar ativamente no tratamento são atitudes que ajudam a obter melhores resultados.

Adotar um estilo de vida saudável, procurar manter uma rotina regular, praticar atividades físicas, ter uma alimentação saudável, evitar o consumo de álcool e outras substâncias são também fundamentais para a recuperação da depressão.

 

FONTES:

MORENO, D.H. ; MACEDO-SOARES, M. B. . Diagnósticos e Tratamento – Elementos de Apoio: Depressão. São Paulo: Lemos Editorial, 2003.

ABRATA www.abrata.org.br

SENA, E.P. Tratamento farmacológico da depressão. In; LACERDA et al. DEPRESSÃO: DO NEURÔNIO AO FUNCIONAMENTO SOCIAL. São Paulo: Artmed, 2009.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Practice Guideline for the treatment of patients with major depressive disorder. American Psychiatric Press, 2010.

STAHL S.M. Psicofarmacologia: bases neurocientíficas e aplicações práticas. 4a. Edição. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.