Em certos momentos da vida, especialmente em situações de grande estresse, algumas pessoas relatam uma sensação estranha de estarem “fora de si” ou de que o mundo ao redor parece “irreal”. Embora essas experiências possam ser transitórias e não necessariamente patológicas, quando se tornam persistentes, recorrentes e causam sofrimento significativo, podem indicar a presença do transtorno de despersonalização/desrealização.
Esse transtorno é caracterizado por episódios de despersonalização — sensação de distanciamento de si mesmo, como se a pessoa fosse um observador externo do próprio corpo ou pensamentos — e/ou de desrealização — percepção do ambiente como irreal, distante, artificial ou visualmente distorcido. Importante destacar que, apesar dessas alterações perceptivas, o contato com a realidade é preservado: não há delírios ou alucinações, e o indivíduo reconhece que suas sensações são estranhas ou desconectadas, o que ajuda a diferenciar esse transtorno de quadros psicóticos.
Esses episódios podem durar minutos, horas e, em casos mais graves, estender-se por dias ou até semanas. Em geral, surgem em contextos de ansiedade intensa, trauma psicológico ou como resposta a fatores estressantes crônicos. O transtorno pode se manifestar isoladamente ou estar associado a outras condições, como transtornos de ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Apesar de ainda ser subdiagnosticado, o transtorno de despersonalização/desrealização tem tratamento. A psicoterapia, especialmente a abordagem cognitivo-comportamental (TCC), tem mostrado bons resultados no manejo dos sintomas. Em alguns casos, pode ser indicado o uso de medicamentos, como antidepressivos (ISRS) ou ansiolíticos, embora a evidência farmacológica seja limitada e variável. Estratégias de regulação emocional, redução do estresse e técnicas de grounding também podem ser úteis.
Reconhecer essas sensações como parte de um transtorno real — e não “frescura” ou sinal de “loucura” — é o primeiro passo para buscar ajuda e restabelecer a conexão com o próprio corpo, emoções e com o mundo ao redor.
Referências
• American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5-TR. 5ª ed., Texto Revisado. Artmed, 2023.
• Sierra, M. (2009). Depersonalization: A New Look at a Neglected Syndrome. Cambridge University Press.
• Simeon, D., & Abugel, J. (2006). Feeling Unreal: Depersonalization Disorder and the Loss of the Self. Oxford University Press.


