Um grande estudo populacional sueco, com mais de 227 mil indivíduos diagnosticados com transtorno por uso de álcool, trouxe um achado que merece atenção.
Pacientes que utilizaram agonistas do receptor de GLP-1, medicações amplamente prescritas para diabetes e obesidade, apresentaram uma redução significativa nas hospitalizações relacionadas ao uso de álcool durante os períodos em que estavam em tratamento.
Entre os fármacos incluídos na análise estavam liraglutida, semaglutida, dulaglutida e exenatida. As medicações foram avaliadas como uma classe, e o estudo não teve como objetivo comparar efeitos entre moléculas específicas, doses ou indicações clínicas. A maior parte da exposição ocorreu com liraglutida e semaglutida, por serem as mais utilizadas no período analisado.
O dado chama ainda mais atenção quando consideramos que os tratamentos atualmente aprovados para o transtorno por uso de álcool apresentam, em média, efeitos modestos, especialmente em desfechos mais graves.
O desenho do estudo comparou períodos com e sem uso da medicação no mesmo indivíduo, o que fortalece a associação observada. Os efeitos foram mais consistentes em pacientes com quadros mais graves e durante o uso contínuo do GLP-1.
Esses resultados reforçam a hipótese de que o GLP-1 atua não apenas na regulação do apetite, mas também em circuitos centrais de recompensa e compulsão, em linha com achados pré-clínicos e observacionais prévios.
Como todo estudo observacional, não permite afirmar causalidade. Ainda assim, os achados abrem espaço para uma pergunta importante: será que os agonistas de GLP-1 podem se tornar uma nova ferramenta no tratamento do transtorno por uso de álcool?
Ensaios clínicos randomizados serão fundamentais para responder essa questão.
Referência
1. Manthey J, Hägg S, Molero Y, et al. Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and risk of alcohol-related hospitalisation: a nationwide population-based study. Addiction. 2024;119(2):310–319. doi:10.1111/add.16321.


