Para muitas pessoas, manter uma rotina já é um desafio. Para quem convive com o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), essa questão é ainda mais relevante — e há razões clínicas e neurobiológicas bem estabelecidas para isso.
No TAB, os ritmos biológicos e sociais tendem a ser menos estáveis, especialmente o ciclo sono-vigília. Essas alterações não são apenas consequências dos episódios de humor; elas também podem atuar como fatores que aumentam a vulnerabilidade a recaídas. Estudos clássicos mostram que quebras nos ritmos sociais (como horários de sono e despertar, refeições, trabalho, atividades físicas e contatos sociais) podem desorganizar os ritmos biológicos internos e precipitar novos episódios de mania ou depressão.
A Terapia Interpessoal e do Ritmo Social (Interpersonal and Social Rhythm Therapy – IPSRT), desenvolvida por Ellen Frank e colaboradores, parte justamente dessa observação. Essa abordagem terapêutica demonstrou que maior irregularidade da rotina está associada a maior instabilidade do humor, reforçando a importância de manter horários relativamente previsíveis no dia a dia como estratégia de prevenção de recaídas.
Durante fases de mania ou hipomania, é comum haver excesso de energia, redução da necessidade de sono e impulsividade, o que tende a desorganizar compromissos e horários. Já nos períodos depressivos, a fadiga, a lentificação psicomotora e a perda de motivação tornam tarefas simples mais difíceis de sustentar de forma regular. Essas oscilações contribuem para ciclos de desorganização que aumentam o risco de novos episódios.
Por isso, intervenções que favorecem a regularidade dos ritmos diários são fundamentais. Ferramentas como agendas, planners semanais flexíveis, divisão de tarefas em etapas menores, além do monitoramento do sono, do humor e dos horários de atividades, ajudam a reduzir a sobrecarga e permitem ajustes precoces. A psicoterapia tem papel central nesse processo, especialmente quando integrada ao cuidado medicamentoso.
Mais do que seguir uma rotina rígida, o objetivo é construir uma estrutura possível, que respeite as limitações de cada fase do transtorno e favoreça maior estabilidade emocional ao longo do tempo.
Referência:
1. Frank E, Swartz HA, Kupfer DJ. Interpersonal and social rhythm therapy: managing the chaos of bipolar disorder. Arch Gen Psychiatry. 2005;62(9):996-1004. doi:10.1001/archpsyc.62.9.996.


